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Opinião: E a nossa engenharia de software?

Numa destas oportunidades que aparecem pela vida profissional, fui convidado a assumir dois semestres do curso de Engenharia de Software em um curso de Ciência da Computação. Interessante: apenas dois meses após o início deste trabalho, outra instituição em que eu trabalhava também me ofereceu o curso, prontamente aceito. Ambos os cursos estavam em montagem, revisão, adequando ainda os últimos semestres para suas avaliações pelos critérios regulatórios – momentos delicados para a jornada de formação superior no Brasil.

Em ambos os casos, me deparei com uma aparente falha de sintonia: um programa de curso excessivamente tecnológico, até mesmo repetitivo para conteúdos já estudados – com bastante dificuldade, pelos alunos – em disciplinas de Técnicas de Programação, Linguagens de Programação, Compiladores, entre outras. Propus, e felizmente foi aceito pelas coordenações (me tornei membro de uma delas pouco depois), transformar o contexto dos cursos de ES em formas de gestão do processo produtivo de software. Considerei, na minha proposta, que os fundamentos de codificação e integração de sistemas já eram ofertados em vários cursos e que, dado o perfil do nosso público discente, abordar os temas ligados à gestão do processo de desenvolvimento de software seria mais adequado.

Penso que foi uma ação certeira! Durante os vários anos – e muitos, acreditem-me! – em que fui responsável pelo curso, temas como agregação de valor pela componentização de software, formação e integração de times de especialistas, ambidestria, inovação, marketing de serviços, entre outros, frequentavam as aulas. O destaque foi a inserção do software livre nos cursos – claro, falo de muito, muito tempo -, ainda sem a devida cobertura e vistos com algum descrédito: “Como vou ganhar dinheiro com isso?” e questões do gênero. Houve certa disrupção nesta iniciativa; praticamente fui convocado em todas as aferições dos órgãos reguladores para explicar “o que era aquilo”. Sempre fomos bem avaliados, havia falta destas visões conexas entre tecnologia e negócios, e isso fez bem às formações.

Após mais este revival, eis que observo a onda do vibe coding e seus desdobramentos. De imediato já afirmo ao leitor que nada tenho contra as tendências, ondas, novidades, etc. Nosso setor vive destes levantes, impulsos e do que, posteriormente aos hypes, permanece como princípio inovador, motiva a realmente mudar e ficar. Aí temos um ponto: sempre seremos motivados a mudar nossos contextos e realidades de trabalho.

Permitindo-me uma última, mas contínua, visita ao passado, navegando até o futuro, não foram poucas as vezes que tivemos a sugestão de simplificar nosso trabalho de produção elementar por estar muito complicado, ter criado sua burocracia e enraizamentos próprios e, finalmente, pela complexidade, priorizar o tecnológico do que sua aplicação para finalidades organizacionais, principalmente de negócios. Aí vem a massiva inserção de análise de dados e inteligência artificial neste momento, pressionando organizações para respostas rápidas, clientes demandando como de hábito, mas com mais requisições e, finalmente, o estresse sobre estruturas de atendimento que não estão desempenhando a contento suas atividades. Cenário tumultuado… afinal… já nos acostumamos, certo?

Na leva desta mudança, um componente diverso dos ERPs, dos serviços web, dos aplicativos e das plataformas: a IA não fica “no mesmo lugar”, num patamar definitivo, mas se muda, evolui, cresce em valor potencial, como já estamos testemunhando com a definição dos agentes, fato que inexistia praticamente dois anos atrás. Pressões, velocidade, turbulências, incertezas…

E a nossa engenharia de software?

Está no “stress”, não há dúvida! Num momento em que, via uma generalização perigosa da proposta do vibe coding, qualquer um pode gerar um código – repito, nada contra isso, definitivamente!!! -, será que todas as repercussões desta produção estão sendo avaliadas? Num caso recentemente presenciado, um executivo da área de gestão de operações afirmou ter “gerado em horas um sistema que a TI havia pedido semanas para prototipar e gerar um teste”. Dos vários questionamentos a avaliar destas ocorrências, que estão se tornando comuns e vistas com ares de vitória sobre a ineficiência, cabe questionar: esse código gerado atende ao que se pretende como elemento da estratégia e da estrutura da empresa?

É nos princípios da visão moderna da engenharia de software que encontramos fundamentos neste sentido. Simples questões: o código está documentado e pode ser mantido por terceiros, sem depender exclusivamente do autor? O código integra e desenvolve a propriedade e privacidade das informações tratadas? Há um mínimo de documentação que permita que outro desenvolvedor – que não quer gastar um só minuto codificando! – o integre a outras funções? E, por exemplo, se quiser publicá-lo numa nuvem para poder escalar em função, temos segurança, padrões e estabilidade?

A visão que a Engenharia de Software nos traz é da inserção dos elementos funcionais de sistemas à base de tecnologia da informação nos arranjos organizacionais. Falando mais praticamente, diz que tudo o que é produzido em soluções de TI (claro, códigos são a base) torna-se elemento da gestão das empresas, relacionando ações como controlar recursos, comunicar times, integrar ações, agregar valor para o cliente, agilizar negociações, entre outras atividades que constituem a rotina organizacional.

Avaliar, portanto, que os códigos sendo produzidos devem ser tratados como uma propriedade organizacional, no caso em nível crítico para com os resultados estratégicos almejados, é essencial! Mesmo considerando que não são recursos do mesmo nível, pense num caso em que cada colaborador, gestor e dono de uma empresa adquirisse seus próprios móveis, computadores, máquinas, estruturas internas e demais itens da empresa conforme suas avaliações e desejos, abandonando padrões, processos e sistemas internos. E aqui falamos, como o disse acima, de recursos pobres em agregação de valor final, passíveis de reprodução ou substituição por outros competidores.

Claro, não defendemos mais burocracia, lentidão, concentração excessiva em tecnologia ou definições de feudos. Há de se reconhecer plenamente que algumas correntes da gestão de software também cometem seus exageros, que prejudicam o desempenho e as respostas avaliadas pelos clientes, principalmente pelos gestores. A transformação das metodologias ágeis numa segunda estrutura de classicismo, com hierarquias, procedimentos excessivos, certificações raras e coisas afins é um sinal de como isso pode acontecer. Não defendo isso.

Projetos de IA: Tempo de plantar e colher

George Leal Jamil é professor e consultor em temas de educação executiva. Engenheiro, MsC em Computação, Dr. em Ciência da Informação, pós-doutorados em Inteligência de Mercado e Empreendedorismo. Autor e Editor de livros no Brasil e exterior. Conselheiro da Assespro-MG.

E então, o que apresento, afinal, são só críticas? Não, absolutamente! Vamos conversar, direcionar e avaliar a Engenharia de Software antes que seja tarde? Abandonar os fundamentos não me parece correto pois, como já foi mostrado ao longo da história recente, a disciplina da ES, como um campo aberto e de base motivadora de inovações, aceita as mudanças, avalia, incorpora e desenvolve. Quem não se lembra da edição do livro de Roger Pressman abordando o desenvolvimento ágil, depois de ter sido considerado um dos “culpados” pela estruturação excessiva dos modelos em cascata? Cito o autor como um caso de postura científica, pois abriu suas fronteiras para acolher, como princípio e com os devidos elogios, as mudanças.

Portanto, vamos considerar o processo de produção de software para perceber que os “codes vibed” estão em potencial, inscrevendo-os corretamente nos padrões, usando intensivamente a IA para adaptar, testar (há de se tirar efetivo proveito das “assustadoras” plataformas de testes e avaliações de segurança de códigos, das quais emerge o fenômeno Mythus), observar integrações (porque o código não resolve apenas um problema pontual, por mais que pareça confortável) e, finalmente, compreender que são partes vivas da organização, com foco na constante mutação da oferta de valor.

E a nossa Engenharia de Software? Vai muito bem, ao seu dispor! Gere respostas rápidas, mas ao mesmo tempo seguras, integradas e com bom ciclo de vida!