
Café com RH destaca protagonismo feminino na gestão de pessoas
6 de março de 2026Por: Edna Meneses – Presidente da Federação Assespro-MG
Neste mês de março de 2026, período que homenageia as mulheres (me recuso a pensar que as mulheres têm apenas um dia comemorativo), fico pensando no papel da mulher no setor de TI. Há mais de 50 anos neste mercado, venho de uma geração que começou uma mudança na estrutura social, em que a mulher saiu de apenas coadjuvante no mercado de trabalho para um papel de colaboradora. Sim, colaboradora e não protagonista, porque estar ao lado é o melhor papel.
Quando estamos falando em tecnologia sabemos que, hoje, este é o setor que mais impacta a economia, a inovação e o futuro do trabalho. No entanto, quando olhamos para quem está moldando esse futuro, os números ainda nos mostram uma realidade desequilibrada: as mulheres ocupam apenas 29% dos cargos no setor digital em nível global, segundo dados do relatório Women in Tech Statistics 2025, da AIPRM.
Quando analisado historicamente, é ainda pior. Em 1984, as mulheres representavam 35% da força de trabalho em tecnologia, portanto, piorou muito nos últimos anos. Isso é um cenário preocupante, pois trata-se de um retrocesso sem paralelo em outras áreas profissionais.
A média global de participação feminina em equipes técnicas gira em torno de 23% e, no Brasil, isso é ainda pior, porque as pesquisas apontam para apenas 19,2% (de acordo com o Observatório Softex, W-Tech 2025).
Isto quer dizer que, para cada mulher em TI, há quatro homens — a proporção é de apenas 0,08% da população feminina adulta versus 0,34% da masculina (Serasa Experian, março/2025).
Ainda existe o problema da proporção de salário, em que as mulheres ganham, em média, 24% menos que homens em cargos equivalentes (segundo a Laboratória + McKinsey & Company), e apenas 20% das novas contratações em empresas de tecnologia na América Latina são mulheres — mesmo quando há candidatas qualificadas.
Um dado particularmente preocupante é que apenas 15% das pessoas que concluem os cursos de Ciência da Computação e TI são mulheres. Houve uma queda em relação aos 17,5% registrados em 2012(IBGE, Censo da Educação Superior 2022). Ou seja, a base da pirâmide ainda está regredindo.
O quadro piora substancialmente quando se fala dos cargos de comando:
- Apenas 14% das lideranças globais em tecnologia são mulheres (Nash Squared, 2023) — o mesmo índice de 2022, indicando estagnação.
- Somente 3 empresas de tecnologia na lista Fortune 500 Global têm CEO mulher.
- Nenhuma das Big Five já teve uma mulher como CEO em toda a sua história.
- O cargo de CTO (Chief Technology Officer) é ocupado por mulheres em apenas 8% a 9% das empresas.
- Em empresas de médio porte, a proporção de CTOs femininas sobe levemente para 20%.
O cenário brasileiro
No Brasil, a situação apresenta contornos próprios e especialmente preocupantes.
Embora as mulheres representem 51,5% da população e 44,7% dos vínculos formais de trabalho no país, a presença feminina no setor de TI é drasticamente inferior. Segundo o Estudo W-Tech 2025 da Softex (novembro de 2025), as mulheres representam apenas 19,2% das especialistas em TI no Brasil — cerca de 89,7 mil profissionais em um universo de quase 470 mil.
Mesmo apresentando nível de escolaridade mais alto: 63,7% das profissionais de TI têm ensino superior completo, contra 51,1% dos homens — as mulheres recebem, em média, 21% a menos, segundo o Ministério do Trabalho, em novembro de 2025. Sendo que, em funções específicas, como programadores e analistas, este percentual fica ainda maior: em média, 26%.
Nos cargos de liderança, as mulheres ocupam 26,2% das posições de gerência, e apenas 13,1% das diretorias em empresas de TI são femininas — percentual inferior ao registrado em 2015.
Também há que se considerar diferenças regionais no Brasil, sendo que São Paulo concentra 31,5% de todas as mulheres em TI no Brasil, seguido por Rio de Janeiro (11,2%) e Minas Gerais (8,4%). Nos estados do Norte e Nordeste, como Roraima, Amapá e Maranhão, menos de 10% dos especialistas em TI são mulheres.
Observa-se que as grandes corporações reproduzem as desigualdades sistêmicas do setor, mas o cenário melhora bastante nas micro e pequenas empresas (ME e EPP). As empresas menores têm se mostrado um espaço relativamente mais acessível para a liderança feminina — especialmente via empreendedorismo.
O sinal mais positivo vem do empreendedorismo onde, em 2024, as mulheres criaram metade dos novos negócios registrados nos EUA — um marco histórico, segundo a Inc. Magazine e dados da Gusto. Na América Latina, o crescimento também é notável: o número de mulheres comandando startups de alto crescimento está em recordes, conforme a Forbes (janeiro/2025).
Especificamente no Brasil, o crescimento da presença feminina na área de TIC superou o masculino em 1,5% entre 2020 e 2023 (Brasscom), com crescimento anual de 7,7% na representação feminina no período. Nas ME e EPP de base tecnológica, as mulheres tendem a ocupar uma fatia maior da liderança do que nas grandes corporações — especialmente em segmentos como EdTech, HealthTech e soluções de impacto social.
Mas existem barreiras estruturais que precisam ser vencidas. Elas refletem barreiras sistêmicas amplamente documentadas em pesquisas:
- Cultura organizacional hostil: 72% das mulheres em tecnologia relatam ter vivenciado uma “bro culture” (cultura de privilégio masculino em redes e decisões).
- Viés nos processos seletivos: 65% dos recrutadores de tecnologia admitem que seus processos de contratação são enviesados.
- Falta de plano de carreira: 66% das mulheres afirmam não ter um plano de carreira claro em suas empresas.
- Síndrome do impostor: sentida por 68% das mulheres em tecnologia.
- Burnout: afeta 57% das mulheres em tech, contra 36% dos homens.
- Evasão precoce: metade das mulheres que entram na área de tecnologia abandona o setor antes dos 35 anos — a uma taxa mais de duas vezes superior à masculina.
E estas pesquisas são muito consideradas pelos setores de RH das empresas de TI. Com o uso da Inteligência Artificial para recrutamento e seleção, existe um potencial muito positivo, pois pode eliminar vieses em recrutamento, identificar disparidades salariais e democratizar o acesso ao conhecimento técnico via plataformas educacionais. Mas também existe o risco real de o uso da IA nos recrutamentos trazer dados históricos que refletem desigualdade de gênero, podendo, assim, automatizar e ampliar preconceitos. É necessário um olhar mais apurado para o uso da IA nos recrutamentos de talentos para o setor de TI.
Um sinal promissor: no Brasil, as mulheres já representam 29,8% dos concluintes de cursos de IA— acima da média global de 22% (Softex W-Tech 2025). Em cibersegurança, somam 17% da força de trabalho no país.
Por experiência própria, vejo que este problema de equiparação de gênero no setor de TI é muito mais cultural e preconceituoso, já que o papel da mulher no mercado de trabalho tem pouco mais de um século, e o processo de intelectualização do trabalho começou há menos de um século. Com o avanço cada vez maior deste papel intelectual do trabalho, minha expectativa é que a quantidade de mulheres venha a aumentar neste mercado de TI, já que o setor de TI tem características que se moldam bastante ao formato de trabalho feminino: criativo, disruptivo e com múltiplas tarefas.
Mas esta transformação do mercado exige ação coordenada em três frentes:
- Educação — estímulo, desde o ensino básico, ao interesse feminino para o setor de TI, com políticas afirmativas nas universidades.
- Empresas — revisão de processos de contratação e promoção, metas de diversidade, mentoria estruturada e cultura organizacional inclusiva.
- Governo e ecossistema — políticas públicas, fomento ao empreendedorismo feminino e acesso ao financiamento.
O Brasil está avançando muito bem neste cenário. Este é, talvez, o dado mais surpreendente e positivo do momento atual. Enquanto a presença feminina na alta liderança caiu 1,1 ponto percentual globalmente, chegando a 32,9% em 2026, o Brasil foi na direção oposta:
- A participação feminina na alta liderança brasileira avançou de 37% para 37,7%.
- O Brasil ocupa a 12ª posição no ranking global da Grant Thornton (Women in Business 2026) — acima de potências como EUA (32ª posição), França (13ª) e Espanha (14ª).
- A consultoria projeta que “o Brasil avançará ainda mais nos próximos anos”.
Um fator explicativo importante: grandes empresas brasileiras passaram a exigir metas de diversidade de seus fornecedores, criando um efeito cascata que chegou às empresas de médio porte — exatamente o perfil do mercado de TI brasileiro.
As mulheres estão chegando com mais força justamente nas áreas de maior crescimento e futuro:
- Inteligência Artificial: 29,8% das concluintes em cursos de IA no Brasil são mulheres — acima da média global de 22% (Softex W-Tech 2025).
- Cibersegurança: 17% da força de trabalho (crescimento acelerado).
- Economia verde digital: 28% das vagas.
Isso é estrategicamente relevante: enquanto nos cursos tradicionais de TI as mulheres regridem, nas áreas emergentes, as mulheres estão chegando em proporções superiores ao padrão global. Se esse movimento se consolidar, pode representar uma virada geracional.
O sinal mais promissor é que o Brasil está na contramão do retrocesso global — enquanto EUA e Europa recuam, o Brasil avança. Isso não é coincidência: reflete uma combinação de pressão de mercado, iniciativas institucionais e, cada vez mais, o protagonismo das próprias mulheres que chegaram ao topo e estão abrindo portas para as que vêm atrás.
É exatamente nisso que acredito: a IA traz um novo cenário para o setor de TI, onde o trabalho se tornará cada vez mais intelectual e exigirá maior qualificação para interpretação, criatividade e questionamentos. E, nesses quesitos, o gênero feminino leva muita vantagem!
Referências bibliográficas:
- AIPRM – 100+ Women in Tech Statistics 2025
- Softex – W-Tech 2025 (novembro/2025)
- Tech for Humans / Medium – Análise Global e Brasileira (agosto/2025)
- Brasscom – Relatório de Diversidade de Gênero no Setor de TIC
- Founders Forum Group – Women in VC & Startup Funding 2025
- McKinsey & Company – Repairing the broken rung / Women in the Workplace 2021
- Nash Squared – Digital Leadership Report 2023
- WEF – Global Gender Gap Report 2025
- INEP / Serasa Experian / Brasscom – dados brasileiros de formação e mercado de trabalho
- Forbes Brasil – Presença Feminina na Alta Liderança Recua no Mundo, Mas Avança no Brasil (mar/2026)
- IPNews – Mulheres na Tecnologia Avançam, Mas Brasil Ainda Precisa de 53 Mil Novas Profissionais por Ano (mar/2026)
- Mindtek – Mulheres na Tecnologia: Dados Estatísticos no Brasil (mar/2026)
- Serasa Experian – Levantamento TI Gênero (mar/2025)
- Grant Thornton – Women in Business 2026
- Laboratória + McKinsey & Company – Mulheres em TI na América Latina
- Sebrae Startups Observatory (2026)


