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Bastidores da execução — O custo invisível do retrabalho

A reunião que acendeu o alerta — e ninguém percebeu

Era segunda-feira, 9h12. O squad já estava na sala de reunião — aquela típica sala de empresa moderna, com TV grande, post-its nas paredes e a promessa silenciosa de que ali grandes projetos aconteceriam. O projeto da vez era o novo portal interno da organização: uma plataforma para integrar documentos, indicadores, solicitações e fluxos de aprovação. A ideia era simples: substituir dezenas de planilhas desconexas e centenas de e-mails perdidos.

O sponsor entrou atrasado cinco minutos, abriu o notebook sem olhar para ninguém e foi direto ao ponto:

— Então, pessoal… eu queria uma solução bem simples, tá? Algo intuitivo. Tipo um painel dinâmico, mas também com relatórios avançados. Nada complexo.

“Simples, intuitivo, dinâmico, avançado, nada complexo.” Cinco palavras contraditórias na mesma frase.

Mas naquele momento, ninguém quis parecer “cri-cri”. A equipe sorriu, anotou, e a reunião seguiu.

Naquele instante, sem fazer barulho, nasceu o retrabalho.

E ninguém percebeu.

O retrabalho é sempre assim: começa pequeno, termina enorme

Três semanas depois, o protótipo estava pronto. O UX enfrentou jornadas longas para deixar tudo muito “intuitivo”. O desenvolvedor backend ajustou integrações para suportar dados em tempo real. O analista de BI montou relatórios avançados.

A equipe estava orgulhosa.

Na apresentação, o sponsor olhou tudo com atenção, respirou fundo e disse:

— Hmmm… ficou bom. Mas acho que precisamos repensar a primeira parte. Eu tinha imaginado algo um pouco diferente.

No rosto de cada pessoa, um silêncio desconfortável. Não era exatamente surpresa era resignação.

Além da sala de reunião, ninguém chamava isso de retrabalho. Era “ajuste”, “refinamento”, “melhoria contínua”.

Mas a verdade nua e crua era: o time teria que refazer semanas de trabalho por um motivo simples:

👉 As decisões iniciais não foram claras.

1. Retrabalho não é exceção é cultura (e uma cultura muito cara)

O retrabalho é tão comum que muita gente nem acha que é um problema. É quase um “ruído operacional inevitável”. Mas não é.

Segundo dados amplamente citados por organizações como PMI, McKinsey e HBR, cerca de 30% a 40% do esforço total de equipes de conhecimento é desperdiçado com retrabalho, revisões ou correções evitáveis.

E isso não é discurso motivacional. É matemática cruel.

Para cada 10 horas que você acha que seu time produziu, 3 ou 4 foram para resolver problemas criados pela falta de clareza inicial.

Outro ponto: pesquisas amplamente discutidas em gestão mostram que projetos com requisitos mal definidos têm 2x mais chance de atraso e 3x mais risco de estouro de orçamento.

E em empresas que não formalizam critérios de sucesso, o índice de retrabalho sobe ainda mais.

Isso significa: Quanto mais ambiguidade, mais retrabalho. Quanto mais retrabalho, menos inovação. Quanto menos inovação, menos futuro.

Simples assim.

2. O inimigo silencioso: ambiguidade

É tentador culpar o desenvolvedor. Ou o design. Ou o PO. Ou o fornecedor. Ou a TI. Ou “o sistema”.

Mas retrabalho não nasce do erro técnico. O erro técnico é só o sintoma.

A causa verdadeira é sempre a mesma: ambiguidade.

Ambiguidade é quando:

  • O líder pensa A mas fala B;
  • O time entende C mas entrega D;
  • Ninguém pergunta o que realmente importa;
  • Todos concordam rápido demais;
  • Ninguém quer admitir que “não entendeu direito”.

Ambiguidade é confortável no início. Mas cobra juros no final.

E esses juros se pagam na moeda mais cara do mundo corporativo:

⟶ tempo de pessoas inteligentes que poderiam estar criando, mas estão corrigindo.

3. Como o retrabalho destrói times (mais do que projetos)

É fácil achar que retrabalho afeta só prazo e custo. Mas ele vai além disso. Muito além.

3.1. Ele esgota emocionalmente

Refazer algo que você já fez bem machuca. Dói na motivação. A sensação é:

“Meu esforço não valeu.”

HBR discute frequentemente que o maior fator de burnout em equipes não é volume de trabalho, mas trabalho sem propósito ou sem impacto claro.

Retrabalho é o suprassumo do sem-propósito.

3.2. Ele consome confiança

Quando o time entrega e o líder diz “não era isso”, algo quebra. Quando o líder pede algo e o time entrega outra coisa, algo quebra também.

Retrabalho mina o contrato psicológico da equipe.

3.3. Ele destrói ritmo

Times de alta performance dependem de cadência. Retrabalho interrompe cadências como se fosse um freio puxado a cada semana.

3.4. Ele impede inovação

McKinsey, BCG e Deloitte já mostraram, em múltiplos relatórios, que inovação depende de duas coisas:

  • Espaço mental,
  • Espaço de tempo.

Retrabalho consome exatamente esses dois recursos.

Onde existe retrabalho demais, a inovação morre não por falta de talento mas por falta de espaço.

4. O que líderes fazem (sem perceber) para multiplicar retrabalho

Não é maldade. Não é incompetência. É falta de consciência.

Líderes criam retrabalho quando:

  • Dizem “rápido” antes de dizer “claro”;
  • Pedem algo sem explicar o porquê;
  • Mudam de ideia e tratam como se fosse detalhe;
  • Usam frases ambíguas como “algo simples” ou “algo moderno”;
  • Aprovam sem realmente olhar;
  • Evitam decidir para não gerar conflito;
  • Não assumem o custo emocional da mudança.

A frase “vamos melhorar na próxima versão” já deveria ser estudada como um ritual de geração de retrabalho.

5. O retrabalho nas empresas de tecnologia: mais comum do que bug

A ironia é que empresas de tecnologia têm ferramentas brilhantes Jira, Azure DevOps, Figma, Miro, Notion mas mesmo assim se afogam em retrabalho.

Por quê?

Porque ferramentas organizam tarefas. Mas requisitos organizam pensamento.

Ferramentas não salvam projetos mal definidos. Aliás, às vezes amplificam o caos, porque dão a sensação de que tudo está sob controle.

E existe uma realidade muito dura para squads:

Retrabalho não aparece nas métricas. Mas aparece no rosto das pessoas.

Velocidade cai. Satisfação cai. Clima cai. Morale cai.

Time que refaz não evolui. Ele apenas gira.

6. Exemplos reais (que você já viu acontecer)

6.1. A reunião rápida que vira semanas de refação

15 minutos de alinhamento. 30 horas de retrabalho.

Porque ninguém perguntou:

  • O que é sucesso?
  • O que não pode faltar?
  • O que é detalhe?
  • O que não será feito?

6.2. A mudança invisível que vira desastre

O líder diz: “Vamos só inverter a ordem das telas, acho que fica melhor.”

Para ele, é só uma ideia. Para o time, é:

  • Nova arquitetura de navegação;
  • Novos eventos;
  • Novos testes;
  • Novas validações;
  • Novos fluxos de integração.

De “trocar a ordem” para “refazer tudo”.

6.3. O famoso ‘entrega assim mesmo’

Uma frase tão comum quanto perigosa.

“Entrega assim mesmo” significa:

“Prefiro velocidade do que qualidade, mas amanhã vou cobrar qualidade.”

Retrabalho garantido.

7. Como reduzir retrabalho (sem virar burocrático)

Não é criar documentação gigante. É criar clareza mínima viável.

7.1. Antes de começar qualquer tarefa, responda:

  • O que estamos resolvendo?
  • O que é sucesso?
  • O que não será feito?
  • Quais são os não negociáveis?
  • O que é “legal ter”, mas não essencial?

Só isso já elimina 40% do retrabalho.

7.2. Formalize decisões

Não precisa virar ata de congresso. Pode ser um parágrafo.

Mas precisa existir registro.

7.3. Alinhamentos curtos, porém profundos

Não é reunião longa. É reunião clara.

7.4. Parar de tratar mudança como gratuita

Mudança é valiosa. Mas tem custo.

É preciso dizer:

  • O impacto,
  • O prazo,
  • O esforço,
  • O trade-off.

7.5. Criar segurança psicológica 

As pessoas precisam poder dizer:

  • “Não entendi”,
  • “Isso não está claro”,
  • “Precisamos decidir melhor”.

Ambiente inseguro = retrabalho garantido.

8. A fórmula final: menos tinta, mais barro 

Executar é decidir. Executar não é correr. Executar é cortar ambiguidade.

O retrabalho é um vilão elegante: não grita, não quebra, não aparece, mas destrói.

Destrói tempo, destrói energia, destrói inovação.

E só existe um antídoto real:

👉 clareza.

Clareza antes. Clareza durante. Clareza depois.

Clareza não é burocracia. Clareza é produtividade.

No fim, grandes empresas não são as que trabalham mais. São as que retrabalham menos.

E isso vale para squads, para negócios, para qualquer projeto digital ou não.

Menos tinta. Mais barro. Mais verdade. Mais decisão.

E, principalmente: Menos retrabalho.

Por Fernando Santos – Vice-presidente de Articulação da Federação Assespro-MG.