
Processos, governança e inovação: o papel estratégico dos profissionais de negócios
20 de janeiro de 2026Era para ser simples. Um sistema que ajudaria milhares de pessoas a resolver tarefas do dia a dia com menos esforço. Mas, no meio do caminho, algo aconteceu: cada reunião adicionava uma nova camada, cada sugestão virava uma funcionalidade extra, cada preocupação se transformava em uma tela adicional. Quando percebi, tínhamos criado um labirinto digital.
Essa experiência não foi única. Em mais de uma década trabalhando com tecnologia, vi projetos brilhantes naufragarem porque confundiram complexidade com valor. É como se houvesse um fetiche corporativo: quanto mais difícil de entender, mais “robusto” parece. Mas será que isso é verdade?
Pare e reflita: quantas vezes você já associou complexidade à inteligência? Quantas vezes acreditou que algo complicado era, por isso, melhor?
A idolatria da complexidade
Vivemos em um mundo que celebra o complicado. Arquiteturas gigantes para problemas simples. Processos longos para decisões óbvias. Interfaces confusas tratadas como “avançadas”. Linguagem inacessível vendida como profundidade.
Essa idolatria tem um preço: exclusão. Quando criamos sistemas que exigem intérpretes, não estamos inovando e, sim, falhando. O usuário não se sente inteligente diante de um sistema complexo. Ele se sente inadequado.
Lembro de um projeto em que a equipe insistia em adicionar camadas de segurança, relatórios detalhados e fluxos paralelos para cada exceção. O resultado? Um sistema que parecia uma obra de arte para quem o desenvolveu, mas um pesadelo para quem precisava usar.
Reflexão: se a tecnologia que você cria exige treinamento constante, será que ela está cumprindo seu papel?
Simplicidade dá trabalho e exige coragem
Simplificar não é empobrecer. É maturidade. Mas aqui está o segredo: simplicidade dá trabalho. Exige entendimento profundo do problema, decisão clara sobre o que fica de fora, renúncia a funcionalidades supérfluas e coragem para desagradar.
Em um projeto recente, sugeri eliminar três etapas que, na prática, não agregavam valor. A reação inicial foi resistência: “Mas isso sempre foi assim”, “O cliente pode querer essa opção”. Argumentei com dados: cada etapa extra aumentava em 40% o tempo médio de execução. Quando simplificamos, o tempo caiu pela metade e a satisfação do usuário disparou.
Pare e reflita: quantas funcionalidades do seu sistema existem apenas para agradar o ego de alguém?
Acessibilidade como responsabilidade
Acessibilidade não é gentileza. É responsabilidade. E vai muito além da deficiência física. Ela também é cognitiva, cultural, tecnológica e econômica.
Se só especialistas conseguem usar, o sistema não é sofisticado. Ele é elitista. Tecnologia que não considera quem está do outro lado não empodera. Ela afasta.
Trabalhando com soluções para pequenos negócios, percebi que muitos empreendedores desistem de ferramentas digitais porque elas parecem feitas para engenheiros, não para pessoas comuns. Quando simplificamos a interface e reduzimos termos técnicos, a adesão cresceu 70%.
Reflexão: sua tecnologia está incluindo ou afastando?
Onde a falta de simplicidade exclui na prática
A exclusão raramente é explícita. Ela acontece no detalhe cotidiano:
- Telas que exigem treinamento constante.
- Processos longos demais para tarefas simples.
- Termos técnicos sem explicação.
- Dependência de “quem sabe fazer”.
O resultado é previsível: erro, abandono, retrabalho e resistência. Quando usar dá trabalho demais, as pessoas desistem ou burlam.
Em um sistema que desenvolvemos, percebemos que 30% dos usuários criavam “atalhos” para evitar processos burocráticos. Não era má-fé. Era sobrevivência.
Pare e reflita: quantas vezes sua equipe criou regras que ninguém segue porque são impraticáveis?
Simplicidade é o que permite escala
Sistemas simples escalam melhor. Reduzem erro, exigem menos suporte, democratizam o uso e diminuem custo operacional. A simplicidade é o que permite que a tecnologia chegue a quem realmente precisa.
Quando simplificamos um processo de cadastro que antes levava 15 minutos para apenas 3, o número de novos usuários triplicou em um mês. Não foi marketing. Foi simplicidade.
Reflexão: você quer crescer? Comece simplificando.
Liderança e ego
Líderes inseguros complicam para parecer importantes. Líderes maduros simplificam para empoderar. A simplicidade exige liderança segura. A complexidade excessiva denuncia o contrário.
Já vi reuniões em que cada decisão parecia uma disputa de quem adicionava mais complexidade. Como se isso fosse prova de competência. Mas a verdadeira prova é outra: quem consegue explicar de forma simples o que é complexo?
Pare e reflita: você está protegendo seu ego ou empoderando seu usuário?
Simplicidade como escolha ética
Simplicidade é respeitar o tempo das pessoas, reduzir atrito desnecessário e incluir mais gente no processo. É ética aplicada à tecnologia.
Quando criamos sistemas que exigem menos esforço, estamos devolvendo tempo para as pessoas viverem. Estamos democratizando oportunidades. Estamos tornando o mundo mais acessível.
Sua tecnologia está servindo às pessoas ou às métricas?
Menos tinta, mais barro
A complexidade exclui. A simplicidade inclui. E, no fim, tecnologia não é sobre impressionar. É sobre resolver. É sobre conectar. É sobre servir.
Menos tinta. Mais barro. Porque tecnologia deve ser ponte, não muro.
- “Se a sua solução parece sofisticada demais para quem precisa dela, será que ela é realmente útil?”
- “O que você pode simplificar hoje para incluir mais pessoas amanhã?”
Por Fernando Santos – Vice-presidente de Articulação da Federação Assespro-MG.


