Assespro-MG emite alerta após identificação de Certidão de Exclusividade falsa

12 de maio de 2026

Assespro-MG emite alerta após identificação de Certidão de Exclusividade falsa

12 de maio de 2026
Você sabia que tem um novo skill listado em praticamente toda vaga de tecnologia?

Não é Python. Não é SQL. Não é cloud. É comunicação escrita. Capacidade de articular pensamento com clareza. Saber dizer o que quer, do jeito certo, para quem precisa entender.

E enquanto o mercado reconhece isso, o Brasil segue na direção oposta: lemos menos a cada ano, o ensino básico entrega estudantes que não compreendem o que leem, e 29% da população economicamente ativa é analfabeta funcional.

Nunca foi tão urgente dominar o próprio idioma. E nunca estivemos tão mal preparados para isso.

O prompt é a nova escrita

Existe uma crença popular de que a inteligência artificial vai compensar as deficiências humanas. Que a máquina é tão inteligente que qualquer pessoa consegue usar, independente de habilidade. É um equívoco caro.

A qualidade de uma resposta de IA depende diretamente da qualidade do prompt, a instrução que o usuário fornece. E escrever um bom prompt exige exatamente as mesmas competências que o ensino básico brasileiro falhou em desenvolver: clareza de raciocínio, articulação de contexto, precisão vocabular e capacidade de estruturar um pensamento do início ao fim.

Quem não sabe escrever com clareza, não sabe instruir uma IA com clareza. A máquina devolve o nível de quem a comanda.

Isso tem um nome técnico, engenharia de prompt, e já existe toda uma literatura sobre o tema. Mas, o ponto central independe de jargão: a língua é a interface entre o humano e a máquina mais poderosa já criada. Quem domina o idioma, opera a ferramenta. Quem não domina, recebe resultado genérico e acha que “a IA não presta”.

O que os números dizem sobre o nosso idioma

Vamos aos fatos, porque eles são incômodos o suficiente para merecer atenção.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), publicada pela Fundação Itaú e pelo Instituto Pró-Livro, trouxe um dado inédito na série histórica: pela primeira vez, 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. A maioria virou não-leitor.

A média de livros lidos por ano caiu para 3,96 títulos, o menor patamar da série histórica. Em quatro anos, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores.

Mas o problema não começa na vida adulta. Começa na escola.

No PISA 2022, avaliação internacional que mede competências de estudantes de 15 anos, o Brasil ficou na 53ª posição entre 81 países em leitura. Apenas 50% dos estudantes brasileiros atingiram o nível mínimo considerado adequado pela OCDE enquanto a média dos países avaliados é 74%. E só 2% chegaram ao nível avançado, contra 7% da média global.

O aluno que o ensino básico brasileiro entrega ao mercado, em metade dos casos, não compreende plenamente o que lê. Não interpreta texto com nuance. Não produz escrita estruturada. E esse aluno, amanhã, vai sentar na frente de uma ferramenta de IA e tentar extrair valor dela.

29% dos trabalhadores não conseguem instruir uma máquina

INAF 2024 Indicador de Alfabetismo Funcional, publicado pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, confirma o que o PISA aponta na adolescência: o problema persiste na vida adulta.

29% da população brasileira entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional. Mesmo índice de 2018. Seis anos sem evolução. E o número piora quando o contexto é digital: 95% dos analfabetos funcionais têm habilidades digitais muito limitadas.

Dentro do mercado de trabalho, o dado é ainda mais direto: 27% dos trabalhadores brasileiros são analfabetos funcionais. São pessoas que conseguem ler palavras e frases curtas, mas perdem o fio quando o texto se torna mais longo, mais denso ou mais abstrato.

Agora pense no que significa trabalhar com IA nesse contexto. Para obter uma resposta útil de qualquer modelo de linguagem, você precisa descrever um problema com precisão, especificar o contexto relevante, indicar o formato desejado e avaliar criticamente se o resultado faz sentido. Cada uma dessas etapas exige competência linguística, que 3 em cada 10 trabalhadores simplesmente não possuem.

A IA não vai incluir quem não tem vocabulário para falar com ela.

Nunca produzimos tanto texto. Nunca lemos tão pouco com atenção.

As redes sociais transformaram a escrita em performance: frases curtas, reações rápidas, legendas de foto, comentários de três palavras. Não é leitura. Não é escrita. É sinalização social disfarçada de comunicação.

O problema não é o volume de conteúdo disponível. É a profundidade com que processamos o que lemos. Ler um livro exige sustentar atenção por horas, construir modelos mentais complexos, rastrear argumentos ao longo de capítulos. Ler um feed exige nada disso.

E é justamente a capacidade de leitura profunda o que os pesquisadores chamam de deep reading que forma o vocabulário rico, a capacidade argumentativa e a habilidade de escrever com precisão. Competências que hoje, na era da IA, determinam quem extrai valor real da tecnologia e quem fica na superfície.

Jornal da USP já documentou como o hábito de leitura, no Brasil, perde espaço para redes sociais e ritmo de vida fragmentado. A consequência não é só cultural. É econômica.

Quem vai operar a IA do futuro?

Deixa eu colocar o problema de forma direta.

A IA está chegando ao mercado de trabalho em velocidade que poucos governos e empresas conseguem acompanhar. Ferramentas de geração de texto, código, análise de dados e automação de processos já estão acessíveis a qualquer pessoa com conexão à internet.

O diferencial competitivo, nesse cenário, não é quem tem acesso à ferramenta. É quem sabe operá-la com sofisticação. E isso exige, acima de tudo, domínio do próprio idioma.

O profissional que articula bem o pensamento por escrito, que sabe contextualizar um problema, que usa o vocabulário com precisão vai extrair de uma IA o que outros nem imaginam ser possível. O profissional que escreve em abreviações, que não estrutura raciocínio, que tem vocabulário limitado, vai receber respostas vagas e concluir que “a tecnologia não funcionou”.

A desigualdade de acesso à IA não vai ser resolvida dando internet para todo mundo. Vai ser resolvida ou aprofundada pelo nível de competência linguística de cada pessoa.

E nesse quesito, o Brasil está mal posicionado. 53º em leitura no PISA. 53% de não-leitores na vida adulta. 29% de analfabetos funcionais no mercado de trabalho.

O que fazer com isso

Não vou propor política pública neste artigo. Não é o espaço.

Mas vou dizer o que cada pessoa que lê esta newsletter pode fazer, agora, com esse diagnóstico:

Ler é investimento profissional. Não entretenimento de elite. Não hábito antiquado. Ler livros de preferência textos longos, densos, que exijam atenção desenvolve exatamente as competências que a era da IA mais valoriza. Vocabulário, estrutura de argumento, capacidade de síntese.

Escrever com cuidado é diferencial competitivo. Cada e-mail bem escrito, cada documento estruturado com clareza, cada mensagem que diz exatamente o que precisa dizer, tudo isso é treino para a competência mais rara e mais valorizada do próximo ciclo tecnológico.

O prompt não é técnica de TI. É escrita. Se você quer aprender a usar IA com eficiência, comece pelo básico: aprenda a escrever com clareza. O resto é consequência.

Menos tinta, mais barro

Existe uma geração sendo formada agora no Brasil que vai chegar ao mercado de trabalho sem saber ler com profundidade, sem escrever com clareza e com a convicção de que isso não importa porque “tem IA pra isso”.

É a inversão perfeita do que a realidade exige.

A língua nunca foi tão poderosa quanto agora. Ela é a interface entre o humano e a máquina. É o instrumento com que você pensa, formula, instrui e avalia. Quem domina o idioma, comanda a ferramenta. Quem não domina, é comandado por ela.

O Brasil precisa parar de celebrar o acesso à tecnologia e começar a se perguntar se as pessoas têm as competências para usá-la.

A ferramenta está disponível. O idioma, para muitos, ainda não.

Fernando Santos, vice-presidente de Articulação da Federação Assespro-MG.