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Inclusão digital sem letramento digital é só mais um número bonito num slide

O gerente de produto abriu o slide com orgulho.

“93,6% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet.” Pausa dramática. “O Brasil está conectado.”

Aplausos na sala. Alguém disse “transformação digital”. Outro falou em “inclusão”. Teve até quem citou a palavra “democratização”.

Do outro lado desse número, naquele mesmo instante, uma mulher de 54 anos na periferia de Fortaleza tentava renovar o cadastro do Bolsa Família pelo gov.br. Não sabia como anexar o documento. Não encontrou ajuda. Desistiu.

Ela estava nos 93,6%.

O número que esconde o problema

Quando o Brasil fala de inclusão digital, costuma usar o dado que fica bem no slide: segundo o IBGE (2024), a internet chegou a 74,9 milhões de domicílios brasileiros, cobrindo 93,6% do país. Em duas décadas, saltamos de 13% para 85% dos lares urbanos conectados, segundo o CGI.br (TIC Domicílios 2024).

Isso é progresso real. Não vou fingir que não é.

O problema é o que esse número não diz.

ENAP publicou uma pesquisa que deveria constar em todo deck de transformação digital do Brasil: apenas 22% dos brasileiros têm acesso a uma internet de qualidade satisfatória. Apenas 22%. Os outros 78% estão tecnicamente “conectados”, mas na prática operam num sinal lento, instável, compartilhado e insuficiente para executar tarefas básicas.

E tem mais. Dados do Global Digital Inclusion Partnership (2024) revelam a dimensão real da desigualdade:

Entre os brasileiros mais ricos: 97% usam internet com conectividade plena.

Entre as classes D e E: esse número cai para 69%.

Quando o critério é conectividade significativa (velocidade, estabilidade e dispositivo adequado): 83% dos ricos contra 1% dos pobres.

Um por cento.

Estamos celebrando uma inclusão que existe só no papel.

Conectado ao celular, desconectado do futuro

A maior parte desses “incluídos” acessa a internet por um único dispositivo: o smartphone. Um aparelho de entrada, com tela pequena, memória limitada e plano pré-pago que zera no dia 20.

Isso não é inclusão digital. É inclusão de consumo. A pessoa consegue ver vídeo, mandar áudio no WhatsApp e checar feed. Mas não consegue preencher um formulário do governo, anexar um documento, fazer uma planilha, criar um currículo ou usar qualquer ferramenta profissional.

Banco Mundial (2024) foi direto: habilidades digitais básicas como copiar e mover arquivos, transferi-los entre dispositivos e anexar documentos são agora pré-requisito para acessar serviços públicos e conseguir emprego. E uma parcela enorme da população não tem essas habilidades.

Resultado: apenas 39% dos domicílios brasileiros conseguiram acessar serviços digitais do governo em 2022, segundo a PNAD Contínua. Quase metade dos entrevistados disse que não sabia usar a internet para isso.

A prefeitura digitalizou. O INSS digitalizou. A Receita digitalizou. O cidadão ficou pra trás.

O analfabetismo que ninguém quer medir

INAF 2024 aponta que 29% da população entre 15 e 64 anos enfrenta analfabetismo funcional, com grande parte incapaz de executar tarefas digitais simples. O dado mais brutal: 95% das pessoas consideradas analfabetas não completaram nenhuma tarefa digital básica.

Cento e dezenove.

Enquanto isso, o mercado de trabalho digitaliza a passos largos. Vagas são publicadas em plataformas digitais. Processos seletivos são online. Entrevistas são por vídeo. Quem não sabe operar o ambiente digital não consegue nem chegar à porta de entrada.

A exclusão digital virou, silenciosamente, exclusão do mercado de trabalho.

O teatro da inclusão

Aqui está o padrão que se repete, e vale nomear:

O governo anuncia cobertura de internet. A empresa de telecom bate meta de conexões ativas. O slide mostra 93,6%. O discurso fala em “Brasil conectado”. O relatório vai para Brasília. O indicador fica verde.

E a mulher de Fortaleza ainda não consegue renovar o cadastro.

Isso tem nome: inclusão perormática. Medimos o que é fácil de medir, o número de conexões, e ignoramos o que realmente importa: se a pessoa consegue usar a conexão para melhorar sua vida. Velocidade. Estabilidade. Letramento digital. Dispositivo adequado. Suporte humano quando necessário.

Nenhum desses fatores entra no indicador do slide.

O que inclusão de verdade exige

Inclusão digital real não é cabo ou sinal de celular chegando num endereço. É a combinação de quatro elementos que raramente aparecem juntos nas políticas públicas brasileiras:

Conectividade de qualidade. Não basta ter sinal. Precisa ser rápido, estável e acessível o ano inteiro, não só nos primeiros dez dias do mês pré-pago.

Dispositivo adequado. Smartphone resolve o consumo. Não resolve o trabalho, o estudo ou o acesso a serviços complexos. Computador ou tablet ainda fazem diferença enorme para habilidades práticas.

Letramento digital. Saber usar o WhatsApp não é letramento digital. É o ponto de partida. A distância entre isso e conseguir um emprego, acessar serviços públicos ou fazer um curso técnico é enorme, e ninguém está medindo essa distância direito.

Suporte humano. As pessoas precisam de alguém para ensinar, tirar dúvida e acompanhar. Tutoriais em vídeo não resolvem para quem ainda está aprendendo a navegar.

Banco Mundial e pesquisadores do CGI.br convergem nesse diagnóstico faz anos. A diferença entre ter acesso e saber usar, o chamado “segundo nível” da exclusão digital, é onde a maioria das políticas públicas brasileiras para.

Menos tinta, mais barro

O Brasil gosta de celebrar o número e evitar a pergunta incômoda.

Somos o país que conectou 6,1 milhões de novos usuários em dois anos e ao mesmo tempo o 119º do mundo em habilidades digitais de jovens. Somos o país que digitalizou os serviços públicos e onde 61% da população não conseguiu usá-los.

Essa contradição não é acidente. É resultado de uma política pública que mede o que é simples de medir e ignora o que é difícil de resolver. Cabo chegando no endereço é engenharia. Letramento digital é educação, paciência, tempo e presença humana. Uma você licitou. A outra dá trabalho.

Inclusão digital sem letramento digital é só mais um número bonito num slide.

E o problema continua lá.

Por Fernando Santos – Vice-presidente de Articulação da Federação Assespro-MG.