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Quando Maquiavel deixa de ser diagnóstico e vira desculpa

Por Rita Bichara*

Não estamos vivendo uma transição. Estamos assistindo a algo mais grave: a renúncia consciente à ética como elemento estruturante da ordem internacional. A ruptura de que se fala em Davos não é apenas geopolítica. É moral. O mundo não está desorganizado; ele está reorganizado a partir de um princípio claro e assumido: o poder não precisa mais se justificar.

As recentes ações dos Estados Unidos sobre a Venezuela e a Groenlândia não inauguram um novo tempo. Elas apenas tornam explícito aquilo que sempre existiu, mas que antes precisava ser disfarçado por discursos sobre democracia, direito internacional e cooperação entre nações.

Hoje, o disfarce caiu. Maquiavel não voltou. Ele foi absolvido. O Príncipe deixou de ser leitura incômoda e passou a ser racionalidade dominante. O uso da força, da coerção econômica e da intimidação política deixou de ser exceção estratégica para se tornar método normal de governo.

Territórios passam a ser tratados como ativos. Estados, como obstáculos. Povos, como variáveis de risco. A linguagem é técnica, mas o conteúdo é brutalmente simples: quem pode, impõe; quem não pode, se adapta.

O problema não é reconhecer que a política internacional sempre foi assim. O problema é outro — mais profundo e mais perigoso: a normalização dessa lógica como única possível. Quando a ética deixa de ser horizonte e passa a ser tratada como ingenuidade, não estamos diante de realismo político, mas de empobrecimento civilizatório. Um sistema internacional que abdica da moral não se torna mais eficiente — torna-se mais instável, mais violento e menos sustentável.

Como *Diretora de Normas Ética da Federação Assespro-MG, afirmo: não é a ausência de valores que ameaça o mundo, mas a decisão consciente de descartá-los. A história mostra que sistemas baseados apenas na força não colapsam por idealismo alheio, mas por esgotamento interno.

A pergunta que precisamos fazer não é se Maquiavel descreveu bem o poder. Ele descreveu. A pergunta é se aceitaremos que essa descrição se transforme em justificativa permanente. Porque um mundo governado apenas pelo medo pode até sobreviver. Mas dificilmente merece continuar.