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20 de fevereiro de 2024
Até quando vamos ignorar a necessidade de reforçar o ensino de português e matemática?

Ao analisarmos os números do setor de tecnologia no Brasil, constatamos que a área permanece em contínua ascensão. Em um mundo cada vez mais digital, onde a tecnologia se torna um meio fundamental para alcançar vantagens competitivas em qualquer segmento empresarial, notamos que a demanda por profissionais qualificados nesse campo fica mais evidente do que nunca.

Um estudo da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) aponta que, em 2024, o país enfrentará um déficit de 1,5 milhão de profissionais em tecnologia. Essa cifra impressionante é contrastada pela insuficiência na oferta de profissionais devidamente capacitados para atender às demandas do mercado tech.

No contexto da busca frenética por profissionais cresce o número de iniciativas direcionadas para a capacitação de talentos, porém, com uma visão míope em relação à base de ensino. Maior que o desafio de capacitar profissionais qualificados em tecnologia, é a compreensão de que um dos principais obstáculos para essa formação no Brasil, está no nível de proficiência em português e matemática.

Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apenas 15% dos alunos do ensino médio brasileiro são proficientes em português, e somente 12% possuem proficiência em matemática.

Não podemos negligenciar que a educação é a base essencial para o desenvolvimento intelectual e profissional dos jovens. As disciplinas de português e matemática desempenham um papel crucial nesse processo, tornando-se ainda mais evidente em um cenário orientado pela tecnologia, que requer a preparação da juventude para os desafios e as oportunidades do mundo digital.

Para compreender a gravidade dessa carência no ensino, é fundamental examinar dados comparativos e benchmarks internacionais, que contextualizam a situação do Brasil em relação a outros países.

Comparação com países da OCDE

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) realiza avaliações educacionais por meio do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), oferecendo uma visão abrangente do desempenho dos alunos em diversas nações.

PISA 2022 – Proficiência em leitura

Brasil: Pontos médios: 413.

Percentual de estudantes abaixo do nível 2: 53,3%.

Comparação com a média da OCDE (487): Brasil fica significativamente abaixo da média.

PISA 2022 – Proficiência em Matemática

Brasil: Pontos médios: 384.

Percentual de estudantes abaixo do nível 2: 70,3%.

Comparação com a média da OCDE (489): Brasil apresenta um déficit considerável em relação à média internacional.

Analfabetismo funcional

Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) 2022:

Brasil: 29% dos brasileiros são considerados analfabetos funcionais em leitura.

75% apresentam analfabetismo funcional em matemática.

Comparação internacional

O Brasil enfrenta desafios significativos em relação a índices de analfabetismo funcional em comparação com países desenvolvidos.

Acesso desigual

Dados do Censo Escolar 2022 mostram a latente disparidade na qualidade do ensino entre escolas públicas e privadas. A dificuldades no acesso a recursos educacionais, afeta especialmente áreas rurais e comunidades de baixa renda.

Os números obtidos reforçam a urgência de ações de médio e longo prazo. Quando olhamos para o setor de tecnologia, fica evidente que uma formação inadequada em matemática e português, reflete diretamente durante a capacitação profissional. Isso compromete diversas iniciativas, sejam públicas ou privadas, na formação de mão de obra especializada em tecnologia.

E por que cabe enfatizar a relevância das disciplinas de português e matemática para um profissional de tecnologia?

Compreensão de algoritmos

A matemática é a linguagem dos algoritmos. Jovens que dominam conceitos matemáticos têm uma vantagem significativa ao compreender algoritmos, a espinha dorsal da programação.

Resolução de problemas

A matemática ensina habilidades essenciais de resolução de problemas, uma qualidade inestimável na solução de desafios complexos que os profissionais de tecnologia enfrentam diariamente.

Comunicação eficaz

O domínio do português não é apenas sobre gramática, mas também acerca da capacidade de se comunicar com eficácia. Profissionais de tecnologia precisam expressar suas ideias de maneira clara e persuasiva.

Linguagens de programação

O português e a matemática fornecem a base para a compreensão das linguagens de programação. Jovens que possuem facilidade com essas disciplinas têm uma transição mais suave para aprender novas linguagens.

Fernando Santos  Presidente da Assespro-MG

Esses quatro pontos reforçam, ainda mais, a necessidade de deixarmos de nos iludir com os imediatismos e começar de maneira séria e comprometida a propor ações a longo prazo. Investir no reforço dessas matérias não apenas prepara os jovens para carreiras em tecnologia, mas também contribui para a construção de uma sociedade mais crítica e inovadora. Profissionais que dominam a língua nativa e os números estão mais bem equipados para tomar decisões informadas e participar ativamente no avanço da sociedade.

A pergunta “Até quando vamos ignorar a necessidade de reforçar o ensino de português e matemática?” precisa ser respondida agora, com ações decisivas que moldarão o caminho para um futuro educacional mais robusto e promissor.